"Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
(...)
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa"
Chico Buarque - Gota d'água
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"Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
(...)
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde."
Chico Buarque - Trocando em miúdos
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
O amanhã que é hoje e não chega.
Amanhã talvez. Mas hoje até o respirar está pelo avesso e minhas certezas divorciam-se de mim mesmo como esboço oblíquo de escritas tristes e linhas diagonais que cruzam minha quietude: lido com esmiúça da cabeça aos pés por olhos turvos de ninguém. As veredas têm sido continuamente sem destino acertado, circunscritas por diálogos incompreensíveis, ciúmes forjados, promessas impossíveis. Os que vão comigo jamais cruzam minhas chegadas. Deixam-me sempre seus bocados, suas metades apagadas, suas sobras quebradas, seus amores desfeitos. É então que findam os sorrisos fáceis, ficam pelo caminho as confissões íntimas e desmancha-se a esmo a felicidade nossa.
Apenas amanhã. Hoje estou excessivamente cansado, impaciente e pessimista para querer que a minha existência seja diferente. É uma fadiga absurda a que é submetida meus músculos, membros e cérebro. Exausto, não penso: duro, assim como as árvores que resistem às alvoradas. E observo atônito os dias passarem como se fossem vidraças maculadas de ansiedade e mentira. Sem que o saiba, sem que o creia e sem que o chore, a penumbra da desesperança já vai surgindo atrás das luzes opacas e me cobre no canto escuro do quarto sem paredes. É sem saber por que respiro que sigo, cambaleio sobre uma corda bamba e perco o equilíbrio quando me fazem discursar quando necessito calar.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Lampejo nas sombras
Prelúdio das ocasiões, sobejo das horas.
A disposição dos antigos objetos dessa sala sem paixões, me dizem provérbios e frases bonitas que eu não entendo ao certo o que significam. E nem busco compreender. Para acomodar-me em doces fantasias, deito fora o tempo e aquilo o que não cabe mais em mim e nem no mundo, as mazelas estampadas nesses retratos sem molduras: e tudo é para respirar por entre realidades dissimuladas, sentir abreviar esses batimentos sem razões, ver fugir por buracos inexistentes o que impregnado já está no espectro. Surge no pano de fundo amarelecido da minha triste vida, aquelas frustrações que não somem, nem dormem, não se escondem.
Letargia vaga do inexplicável, desatino dolorido que ofusca as retinas, sombras e sobras de meus desapontamentos. Ergue-se um vidro diáfano entre o que me forma e o ideal, constrói-se um muro entre o plausível e o impossível, anseios inomináveis acercam-se entre mim e ti: avisto-te apenas por alegorias tortas, por fatos contestáveis, maneiras imprecisas. A saudade, quando transvestida de angústia, nubla aqueles temporários instantes em que nos esquecíamos de nós mesmos, onde passado não havia e o futuro era imensurável. Agora venta em mim, como confissões de tempestades atemporais, a bebedeira hesitante de todas as eras. E meu peito silencia desgostoso para me lembrar que você não está.
A disposição dos antigos objetos dessa sala sem paixões, me dizem provérbios e frases bonitas que eu não entendo ao certo o que significam. E nem busco compreender. Para acomodar-me em doces fantasias, deito fora o tempo e aquilo o que não cabe mais em mim e nem no mundo, as mazelas estampadas nesses retratos sem molduras: e tudo é para respirar por entre realidades dissimuladas, sentir abreviar esses batimentos sem razões, ver fugir por buracos inexistentes o que impregnado já está no espectro. Surge no pano de fundo amarelecido da minha triste vida, aquelas frustrações que não somem, nem dormem, não se escondem.
Letargia vaga do inexplicável, desatino dolorido que ofusca as retinas, sombras e sobras de meus desapontamentos. Ergue-se um vidro diáfano entre o que me forma e o ideal, constrói-se um muro entre o plausível e o impossível, anseios inomináveis acercam-se entre mim e ti: avisto-te apenas por alegorias tortas, por fatos contestáveis, maneiras imprecisas. A saudade, quando transvestida de angústia, nubla aqueles temporários instantes em que nos esquecíamos de nós mesmos, onde passado não havia e o futuro era imensurável. Agora venta em mim, como confissões de tempestades atemporais, a bebedeira hesitante de todas as eras. E meu peito silencia desgostoso para me lembrar que você não está.
Contudo, não existo. Estou. Só percebo aquilo que não presencio e não almejo nada a não ser uma praça onde se possa sentar num banco de madeira envelhecida, ficar a meditar sobre o céu e vê-lo por azul no outono, com um lago límpido à frente e um sopro manso para acalentar abraços que se despedem. E eu finjo ser poeta do que não sei, amar o que não possuo e dar vida a enleios fugidios.
Entorno no ar pensamentos soltos e essas palavras são para comprovar a incoerência das minhas sensações.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Licença (des)poética
Jamais houve inspiração,
explicação.
Subtraio-me sem compreender-me.
E é na solitude que quase vivo,
para olvidar o seu sorriso,
desembaraçar a vastidão.
Na resplandecência,
efêmera em sua essência,
duro apenas por frações
e fatias de sabedoria,
minúsculas razões
que não apartam nostalgias.
Vou para varanda de meus abandonos
gritar a minha alma:
ninguém ouve o desvario de acamados desconsolos,
o fim de uma abstinência calada.
Sangro toda imundice amontoada das ruas,
dói-me as feições amargas e mudas.
E isso me bate sem perdão, sacode
feito pingos d’água na madrugada quando chove.
O resto, migalhas do espelho que se esfacela, são (re)versos do iniludível.
explicação.
Subtraio-me sem compreender-me.
E é na solitude que quase vivo,
para olvidar o seu sorriso,
desembaraçar a vastidão.
Na resplandecência,
efêmera em sua essência,
duro apenas por frações
e fatias de sabedoria,
minúsculas razões
que não apartam nostalgias.
Vou para varanda de meus abandonos
gritar a minha alma:
ninguém ouve o desvario de acamados desconsolos,
o fim de uma abstinência calada.
Sangro toda imundice amontoada das ruas,
dói-me as feições amargas e mudas.
E isso me bate sem perdão, sacode
feito pingos d’água na madrugada quando chove.
O resto, migalhas do espelho que se esfacela, são (re)versos do iniludível.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
"É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: "É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser."
Charles Baudelaire
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Vida inversa e amores
A vida está inversa e os amores se cansaram. As mesmas carências e vontades, os mesmos temores. Estou partido ao meio, avulso ao vento. E meu coração é um trapo antigo, como aqueles que se deixam no rodapé da porta para que não entre água e poeira por baixo. O corpo padece, suporta sozinho uma carga descomunal. Minhas impressões, restos de mim, deixam marcas incuráveis em meu rosto e cicatrizes pontiagudas em minha alma: já não posso mais deslembrá-las, afogá-las no vácuo impreciso da esperança. A vida está inversa e os amores, indiferentes. Não há diálogo, nem gestos e o silêncio adoece. Emudeço dentro de mim mesmo, como um disco riscado a rodar infinitamente numa vitrola sem agulha. O conflito dormente que saí das entranhas, desgosto acumulado do que não soube ser, névoa translúcida de emoções imperfeitas, abrolha e sucumbe, desassossega até a última gota. Alheio, aglomerando quimeras e vendo tudo passar do lado de fora, estou eu sentado à janela de enganos desrazoáveis. E já não há mais amores, nem vida e nem réplicas.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Sobre o quase
Ansiedades veladas
Confusões caladas
Amarguras insensatas.
E eu respiro por osmose,
Multiplicando as somas de vácuos, espaços, buracos,
Como se a sombra do último minuto, acolhida por respingos de arrependimentos,
Projetasse sobre o nada tudo aquilo o que quase posso oferecer.
Confusões caladas
Amarguras insensatas.
E eu respiro por osmose,
Multiplicando as somas de vácuos, espaços, buracos,
Como se a sombra do último minuto, acolhida por respingos de arrependimentos,
Projetasse sobre o nada tudo aquilo o que quase posso oferecer.
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