terça-feira, 17 de janeiro de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Atrás da Porta - Chico Buarque
Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
sábado, 31 de dezembro de 2011
Refazendo primaveras
Quando quis saber de mim, através do ponto cego das tuas intenções obscurecidas, já era doido de nascença e estrangeiro de lugares outros. Nos meus resquícios empoeirados que resguardam contos invisíveis, nos meus lugares sagrados que abrigam pedaços oníricos de mim, nas paredes rabiscadas das profundezas desses breus, existiam sempre ondas de incertezas e espasmos de sinceridades indizíveis, e eu rodopiava por sobre vãos rarefeitos. Atarantado pelo sincronismo disforme de uma vida antagônica, como se estivessem segredados todo e qualquer mistério do que quis ser no póstumo, que é agora presente, esqueci-me de arrancar o revestimento que encobria a película das sutilezas e me restou uma atroz carcaça que me reveste de algo que não sou.
Mas não me importei nunca com o devir ou o agora, nem com as fúrias das tempestades ou com os infortúnios do tédio e a reverberante espera. E pouco me interessam esses livros que quase nada me ensinam, a busca pela erudição e entendimento das coisas e do mundo ou o estudo da situação política e econômica do país: toda explicação escancara as portas para novas dúvidas e andamos em círculos, bêbados, toda vez que uma estrada termina e uma outra se inicia. Se ocupo minhas horas a pensar nesses aspectos inacabados e imprecisos da existência, é pelo simples e vago motivo de não saber suportar, lidar, viver com a celeridade dos acontecimentos e com as renúncias do esquecimento a qual estou submetido, num balançar constante e iminente que me empurra a passos largos à loucura de não lhe pertencer; dada a impossibilidade de satisfazer suas lacunas com as metades utilizáveis de mim, gasto meus instantes com pensamentos desinteressantes e fúteis.
Palpita em meus ouvidos canções desarmônicas, ao sabor ilógico de um diapasão desafinado. Fulguram em minhas retinas imagens de sonhos desconhecidos, paisagens faustuosas se desenham e as absorvo quase reais e perfeitas. Contudo, em nenhuma delas você está e isso me desassossega como o maior dos pesadelos, como a mais terrível e amarga mancha do inalcançável. A cabeça inclinada para trás, olhos cerrados: e já não é mais a sua figura que se forma no fundo de minha mente. É outra coisa. É a certeza absurda e vã de não vislumbrar fugas ou caminhos ou resoluções para esses labirintos tortos e cegos que inventei, esses lacres imunes aos encantos que forjamos só nossos.
E ao fim dessa pobre retórica que nada tem de novidade, abandono esses ocos apontamentos, pois já desanuviei a inquietação de sentir. Dormente e alheio, pressinto os dilacerantes nevoeiros que me aguardam. Mas prefiro ser louco e andar sem asserção, afastado dos domínios que não são meus, dos juízos que refaço a cada primavera.
"Dá-me mais vinho, porque a vida é nada" Fernando Pessoa
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Sobre o intangível
Enquanto encarava a mala disformemente atirada no canto obtuso e sujo da rodoviária, os olhos fixos nela, como que para relembrar mentalmente todos os inúteis objetos que ali dentro atirara meia hora antes, desenvolvia calado e para mim a estúpida ideia que todo vagabundo possui mesmo sem saber, a qual descrevo abaixo. Como disse, é estúpida e não merece ser lida nem por quem a desenrola. Ao mesmo tempo, ressurge na memória sem esforço ou necessidade e se escrevo-a é para esquecê-la:
Tenho uma teoria. Falha, é verdade, mas ainda assim é de se pensar: Um homem deve viver bem se estiver ao seu alcance um pedaço de pão, um vinho vagabundo ou uma dúzia de cervejas baratas, alguns amores e umas poesias soltas. Mais do que isso é exagero e vaidade, e esse mundo já está entupido disso. (E é com melancolia que recordo nesse instante: nenhum desses itens há na mala. Merda!). O dinheiro é escasso e o pão está caro demais - deve ser culpa da inflação. Sempre é. Mas um vinho de baixa qualidade e umas cervejas de sabor duvidoso sempre nos acolhem nas tabernas dessas solitárias ruas. Todos dizem e é mesmo verdade: incrível como o álcool torna algumas pessoas sociáveis, despreocupadas com o ingrato peso da realidade, talvez. Outras, porém, nem com grandes quantidades de fada verde, companheira da genialidade dos loucos boêmios desde tempos imemoriáveis, conseguem respirar aliviadas por deixarem de lado a sensatez. Notei ao longo desses anos que muito discernimento e razão, equilíbrio e raciocínio lógico tornam as pessoas rapidamente enfadonhas e pessimistas, burocráticas e infelizes, até com quem não merece ser tratado assim. É por isso que eu venero a loucura, os exageros e os palavrões. E prefiro que o bom senso seja deixado de lado, porque é geralmente nessas condições que as melhores risadas são dadas, que as maiores histórias são contadas, que as mais saudosas recordações são guardadas.
Que seria das relações sociais, dos infortúnios causados por celebrações tediosas, seja ela de qualquer espécie, sem a presença do álcool, na companhia de boas parcelas de hipocrisia? Verdades incertas e nada mais que isso! Hipocrisia, aliás, como pronunciou certa vez um amigo, é a maior das diplomacias. O que me leva a concluir, com um meio sorriso no canto dos lábios, que só se faz diplomacia de verdade com boas doses de bebida alcoólica no sangue.
Quanto a poesia é ainda mais fácil. Algo escrito numa rocha já gasta, uma folha que se desprende do caderno de uma menina sonhadora, a orelha de um livro antigo ou rasgado, o estar a ouvir o vento assoviar pela janela de prosas inacabadas, e pronto: tem-se material suficiente para que se reflita taciturno sobre uma porção de questões pertinentes há existência. E matar o tempo assim é como deixar um legado para a eternidade, mesmo que ninguém ao redor se importe, saiba ou sinta, como de fato normalmente ocorre. O verso pode ser frouxo, desandar em rimas pobres ou mesmo serem palavras do Paulo Coelho: expiações sempre nos fazem encontrar uma fresta de significado no oceano das incoerências.
Só quem vai para longe ver o sol nascer em horizontes de outrem é que pode se ver livre por alguns momentos da sujeira, do cansaço, da repetição, da pressão de ser alguém. Quem vê menos prédio e mais plantação, menos concreto e mais abstração, provavelmente é mais feliz. E é justamente quando se encontram as chamadas meias verdades, já fatigadas de doces desilusões. O destino se ri de nós por não sabermos nos afundar em profundas e profusas horas de silêncio e por querermos ser mais inteligentes que o tempo, único entendedor da orientação exata dos caminhos desconexos. Epifanias, esperanças ou coisa que o valha, só se alcançam pelos fugidios segundos dos ponteiros, impossíveis de serem duradouros e absolutos.
Como sempre, quem tem razão é o gênio Fernando Pessoa, sob a luz da poética quase pagã e ao mesmo tempo divina de seu heterônimo Ricardo Reis, ao dizer, com sua costumeira simplicidade esclarecedora:
"Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias.
A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos. Só nós somos sempre iguais a nós-próprios." – perfeito e preciso como o pôr do sol depois do dilúvio.
E tem também os amores. Os amores. Mas esses não se pode prever, querer ou buscar. Surgem sem que se perceba, sem que se saiba ao certo por qual estrada seguirá, assim como os vales por entre montanhas. E se perdem despercebidos, como folhas ressecadas no quintal da casa velha. Imprevisível por essência, nos tira do sossego quando queremos esquecer e nos põe no delírio quando precisamos de descanso. Nos arranca o juízo e nos faz sair da linha. Mas o outro ângulo, aquele que enxergo apenas de supetão através de instantes vencidos e que mostra a mesma face da moeda já enferrujada, faz o mundo parecer pouco e pequeno, os problemas uma poeira na imensidão e a vida um lampejo breve e inesquecível.
Em verdade, nunca vi essa face, ou se quis ver estava cego. Em verdade, foi com melancolia e pesar que descobri que amar alguém pode não significar nada nessa vida. Porque geralmente as horas em que o mais belo pensamento recosta na breve lembrança dos sinais quase escondidos, transcorrem alhures aos desejos suprimidos e imediatos. E pode até ser bonito ou romântico que seja assim, mas apenas em fantasias infantis ou nessas histórias modernas de vampiros. Na vida real, essa em que a inquietação fala mais alto do que a pureza dos sorrisos, ninguém se importa muito. Há algum tempo, quando a escassez sórdida e a sutil ingratidão dos amores começaram a assolar, escrevi num guardanapo de bar um verso que até então não compreendia bem, mas agora relembrando talvez se encaixe nesses devaneios:
eu fui embora, mas não parti,
metade do que disse escondi.
agora apenas me calo,
no melancólico sopro do teu hiato.
(Você me diz que precisa de colo quando está sozinha e que prefere estar só quando te ofereço o meu perdão. Acho que é por isso que eu gosto mesmo é de não te encontrar, só para me embriagar sem culpa, reclamar de tudo e escrever sobre o que quiser. Não como resposta, mas para esquecer; não para ter razão, mas para apaziguar o coração).
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Para esquecer desatinos
Nesses desconcertos sem arranjados já não há mais o que sentir ou pulsar:
só o silêncio dos ecos de romarias distantes se fazem notar.
Existe ali, onde termina o caminho deflorado dos meus amores,
a esperança incerta e bêbada do porvir sem cores.
E me circundam torpores e consternações, metades e tormentos, lamúrias e equívocos que se cruzam e se embaraçam com finais meus e restos teus, com vontades minhas, suspiros teus. É por isso que apenas lhe sonho, figura inacessível de desejos descabidos. Se fosse realidade, não seria essa poesia ininteligível e contrária, nem mesmo uma prosa com cadência bela. Se fosse realidade, estaria só e pelo avesso, vagando em ruas de mão única, e não abrigada no fruto de minha pueril fantasia.
Mas para além de mim não há nada que se possa fazer presente. Navego por entre correntezas e pelos vácuos dos meus descompassos. Me abstenho de alegrias, espectro efêmero e alheio, e sorrio para a insanidade de quase ser. Perco no horizonte essa faísca repentina que se convém denominar felicidade: bebo e fumo meus maços e isso me parece como a plenitude branca das nuvens.
Violão desafinado, livros rasurados e páginas marcadas, manchas frias pelo gasto assoalho; E é tudo para aparentar esquecer meus cansaços quando me deito ao teu lado.
Naquela manhã de domingo que só nasceu para mim, você despediu-se e levou o que de mais secreto havia nos meus recantos. E desde então eu endoideço a procurar-te para saber dos teus fins, secar tuas lágrimas, entender teus rogos e sorrir para as tuas tortas razões. Mas os desatinos não somem e os delírios não desgarram. Ficam assim, pairando entre o eu incompleto e a suposta luz que és tu.
domingo, 9 de outubro de 2011
Contornos
Dolorido, apertado e esquecido. Meu peito abriga um coração que suplica por instantes de paz, por fagulhas de sentido, por brechas de entendimento.
Confusão, descontrole e amargura. Minhas lembranças clamam para serem apagadas, lamentam o negrume sólido que concreta as emoções passadas. Fazem uma espécie de oração calada, uma prece angustiada, para que suma da memória as ilusões que transformei em verdades, já que os bons momentos jamais foram divididos: foram eles meus e de mais ninguém.
Levei a eternidade para perceber que o amor, essa pequena palavra que sopramos ao alento toda vez que a pulsação acelera mais do que deveria, tem caminhos tortuosos, regras complexas, palavras dúbias, necessidades que não sei compreender. Egoísta que sou, vi os outonos sucumbirem às tentações de devastadoras paixões e dei adeus para esperanças que enchiam-se de promessas vazias. Mas segui sempre pelos varados trilhos que construí por esses curiosos percursos.
Vejo-me sozinho, no meio do furacão e dentro de tempestades que criei, feito uma criança que tenta saber por que desaba o mundo a sua volta. Mas em minhas terminações suprimidas, nos interstícios sonolentos onde prevejo um pedaço de devaneio sem alma, haverá sempre a insônia e olhos fatigados por tentarem enxergar o incompreensível. Nas bordas de cada rio, nos contornos de todos os lugares idealizados, nas margens dos nossos desapegos ou nos bares dos nossos afogamentos, haverá sempre uma fatia de mim. E de você.
“Sou muito sozinho. Tenho todos comigo, e ao mesmo tempo, ninguém.”
Adaptado de Camila Depane
“Ah, quem me salvará de existir?”
Bernardo Soares, em “Livro do Desassossego”
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
"Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
(...)
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa"
Chico Buarque - Gota d'água
________________________
"Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
(...)
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde."
Chico Buarque - Trocando em miúdos
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
(...)
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa"
Chico Buarque - Gota d'água
________________________
"Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
(...)
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde."
Chico Buarque - Trocando em miúdos
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